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Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

 


Foi bom enquanto durou. Este blog encerra suas atividades por pura falta de assunto.


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Caústicos:
Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006

 



Pensamentos que rasgam



Há pensamentos que rasgam e palavras que cortam. Às vezes nem é preciso pensar nem ler. Basta supor. A mutilação acontece sem que as lâminas tenham sido postas à mesa. O importante é ver sangrar até o fim.
Chegar a uma cidade estranha é um ato precedido de rituais de pensar e escrever, escrever no pensamento e supor algumas vezes.
O primeiro ritual é erguer um muro de proteção ao seu redor. Tornar-se hostil e evitar qualquer envolvimento. Depois, basta evitar amigos e conhecidos, apenas ter colegas. Por fim, arrebata-se o muro cada vez mais alto, aos poucos: a proteção e a infelicidade estarão plenamente satisfeitas em sua ânsia de fazer um mal parecer um bem. Sem amigos nos quais confiar, a muralha protege um terreno estéril, já que dentro não chove, não faz sol e nada mais brota, porque as sementes não chegam. Uma gota que cai ou uma dor que se cante passam a significar o mesmo terreno seco. Não há testemunhas com quem simpatizar. Não é porque nos acostumamos a pensar que uma coisa não é errada que ela é necessariamente certa, já diria Paine. Com a muralha é assim. Nem boa nem ruim, é bom pensar.
O segundo ritual, logo após a derrubada do muro, que acontece após muito se contorcer diante da grandeza da auto-destruição, é o da abertura franca. Grandes laços são construídos, forma-se uma teia irresistível de elogios mútuos, companheirismo, camaradagem e traição. A mão que afaga é a mesma que arremessa para o infinito as nossas confianças. Então forma-se a necessidade do isolamento, que não pode ser o muro, porque inútil, nem a abertura, dolorida abertura.
O terceiro ritual é o da integração do muro com a abertura. Mas sobre esse não tenho nada a falar nem supor. É apenas um pensamento que me rasga e palavras que, escritas, me fazem sangrar os dedos.




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Caústicos:
Sábado, Fevereiro 04, 2006

 



As estradas que outros já passaram



Ali era um campo. Mais para frente, uma casa grande. Para trás ficava uma floresta. Do outro lado morava o seu bisavô. Por aqui passava um rio. A gente se conheceu ali, quando havia uma praça. Então é preciso pegar a terra e levá-la até os olhos e ficar imaginando quantos pés nela pisaram, quanto lágrimas ali se derramaram.

Sobe-se no morro. Depois os olhos perseguem cada pedaço de paisagem lá para cima. A imaginação corre e intriga: quem abriu aquelas estradas e aquelas trilhas que se desenrolam como um barbante jogado ao acaso? Quantas mães por ali passaram? Quantas crianças ali nasceram? Quem morreu? Quem mudou a árvore de lugar? Quem foi o primeiro a chegar lá? Eu posso encontrar algum antepassado escondido por entre as folhagens?

Depois os passos levam até a cidade. No final da rua Pamplona havia sítios. Depois dos sítios vieram as casas, casas que meu avô fez as portas. Nessas casas havia canos, que provavelmente passaram pela mão do meu outro avô, que jamais conheci. Só se sabe dos prédios que caem e levam com eles quem os construiu. Dos pedaços de asfalto que substituíram um caminho de paralelepípedos e palmeiras. Da praça que virou piscina e da piscina que virou aterro para um terminal rodoviário, tendo previamente sido um lixão. E então outros homens e mulheres colocam as vigas no lugar e deixam cair suor no cimento que sustentará as paredes de uma nova casa.

Dali a muitos anos, quando estiver passando por ali, vai poder olhar cada pedaço de concreto e dizer: eu estou ali, veja como eu sou jovem.




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Caústicos:
Domingo, Janeiro 29, 2006

 



Extirpado



"Munique" conta a história de um homem que mata pelo seu país porque considera o seu país a sua família. Um país e uma família que amam seu servo de acordo com as circunstâncias, o que não parece estar muito de acordo com a natureza última do amor, de entrega ampla e imediata, sem condições. Esse amor só aparece de soslaio, frio e distante. Não é possível saber se é um sentimento que se oculta ou que mostra de si apenas uma pequena parte. Não é possível nem saber se existe qualquer tipo de sentimento. Nem no Estado nem na família.

À medida que os assassinatos vão se tornando rotineiros na vida do agente israelense, quando as dificuldades aumentam, ele lembra da mãe que o abandonou quando criança. O filme não aborda as razões da mãe. Mas o filme também não mostra com profundidade as razões do Estado de Israel que se lança em uma caça ao tesouro (a morte de guerrilheiros ou terroristas palestinos, às vezes as duas coisas na mesma pessoa) na qual a soma é sempre zero: um ataque de um lado corresponde sempre a um ataque do outro lado, cada vez mais sangrento. A razão ou desrazão, a ausência de razões e a impossibilidade de um acordo aparecem num diálogo improvável entre o agente-assassino e um palestino, quando o primeiro estava escondido sob outra identidade. O palestino semeia os seus argumentos. Com o tempo, o israelense passa a usar o argumento do palestino não em nome da paz, mas para mudar o curso da guerra. Não pensou, aderiu. Ele não pensou, apenas sentiu. Com o sinal contrário, é o que se passou com os responsáveis por pedir ao agente a seqüência de mortes dos responsáveis pelo Setembro Negro. Eles também não pensaram, sentiram. Depois que sentiram, e ai avançaram em relação ao agente, pensaram. E a guerra, então, assemelha-se a uma vingança familiar, mas em escala global, na qual os argumentos não existem, precisam ser criados. Mas se na família há algo de honra, na vingança de Estado a honra é um simulacro que justifica medidas as mais diversas. Sempre em nome da honra. Sentimento fabricado em nome do sentimento. Uma honra também pela metade.

Por isso, os mortos no Setembro Negro soam como irmãos para o protagonista de ¿Munique¿, mas filhos de uma mãe bastarda, incompleta. E mesmo as pessoas que lhes fornecem as informações para que ele se lance à caça dos palestinos também são bastardos, embora mereçam simpatia. É um mundo de bastardos na qual só se tem como opção amar, sem reciprocidade, para poder sobreviver. É o amor não em relação ao outro, mas em relação a si mesmo. Ama-se para poder continuar vivendo, deixando a vida seguir um script determinado por um amor pela metade. O novo filme de Spielberg não é histórico nem político. Opõe razão e emoção em decisões individuais e em decisões de Estado.

"Munique" não acrescente nada sobre o conflito entre árabes e judeus porque não é um filme sobre árabes e judeus. É um filme sobre a capacidade de fazer algo quando se acredita com todas as suas forças no que se está fazendo. Um filme sobre restringir o amor e e suas conseqüências apenas a um porto seguro.




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Caústicos:
Sábado, Janeiro 28, 2006

 



O futuro de uma idéia


A porta estava em cima do buraco. O buraco, dentro do chão. O chão o rodeava por todos os lados.
Ele vivia em uma cratera sob o piso de uma avenida de São Paulo.
Acordava, punha os pés para fora da cama. Depois da cama vinha o piso de terra batida e o som de um carro pulando lá fora: zum. Do som do carro, do pé no chão e do chão que o rodeava, sempre soltava uma exclamação:
- Como poderia estar bonito o dia lá fora.
E tirava os pés do chão e os colocava sobre a cama de novo.
Sonhava de olho fechado, com justiça. Não guardava fotos nem escutava músicas, evitava as recordações. Pegava uma barra de ferro e fazia exercícios quando algo lhe assaltava a memória. Passava horas levantando e descendo a barra, levantando e descendo a barra, levantando e descendo a barra até se cansar. Quando ele se cansava, mas a memória não partia, ele saia da cama rápido, pegava uma bola e a chutava repetidas vezes contra a parede, concentrando-se para ela nunca saísse do seu controle. Repetia os movimentos com cada vez mais velocidade, desdobrava-se, caía no chão, se debatia contra a parede, mas a bola não saia do seu controle. Suas memórias também.
Assim se mantinha sob estrito controle de si mesmo. Seu grande medo era virar Otelo, que morreu e matou porque acreditou. Para ele, que morava no chão, não havia no que acreditar. Acreditar não era um verbo plausível, como fora para Otelo.
Por isso, se queria comer, colhia algumas folhas de alface plantadas na horta, perto do jardim. Não comia carne. Se tinha sede, bebia água. Se tinha sono, dormia. Se cansado, deitava. Ele vivia cansado.
Ao contrário dos homens insensatos, que buscam a imortalidade em grandes atos, ele sabia que a imortalidade só se encontra em uma reputação ilibada. Para se manter a salvo de grandes turbulências, guardou sua honra junto com ele em um buraco isolado, mas não suficientemente isolado para que não pudesse ser mantida sob contato constante das mudanças que ocorrem no espírito do tempo. E isso demanda esforço, porque só a solidão não basta para se manter bom.
Se ouvia batuques fortes, era Carnaval. Todo Carnaval tem o mesmo batuque, a não ser quando o som flui sem ritmo: há tristeza no ar ou grande transformação por vir. O mesmo acontece com os carros. Se voam, vão bem. Se vão devagar, também vão bem. Mas se não vão, há um problema. Por muito tempo, significa crise econômica. O princípio do movimento valia para o ritmo dos passos, para a intensidade da chuva, para o aumento de cabos destinados à internet e ao telefone. Recebia do mundo, mas o mundo não sabia o que entregava a ele. Sabia de tudo sem deixar saber que sabia. Mantinha-se a salvo dos outros. E os outros a salvo dele.

Até que um dia o buraco ruiu.
Ruiu porque ele se debateu tantas vezes contra a parede do buraco que as paredes não suportaram a pressão repetida durante diversos dias. Ele perdeu a sua casa assim. E teve de voltar

Porém, não sabia o caminho para casa. Não podia construir outro buraco, porque a sua casa fora violada. Não podia deixar uma reputação de lado. Porque a reputação, ao mesmo tempo que era sua, dependia de aprovações tantas e combinadas a tantos outros fatores que lhe parecia inexorável a perda dela em algum momento. Via-se perdendo a si mesmo. Colocou a cabeça para fora. Naquele momento ele perdia a imortalidade e ganhava a necessidade de ter de acreditar para continuar sendo bom. E ser bom era torturar a si mesmo com o peso dos outros, um peso profundo, constante, inegável e indissoluto, embora irresistível.





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Caústicos:
Domingo, Janeiro 22, 2006

 



Nós não quebramos pratos, mas...



Na minha família, nós não quebramos pratos. Não somos que nem esses povos bárbaros, os gregos, que arremessam pratos no chão quando ficam felizes. Nós também não somos como os russo, aqueles barbudos que curtem quebrar um copo. Nós quebramos DVDs. E tiramos telhados. Pois assim somos nós.
Um dos meus tios brigou com a esposa. Ele pediu a ela que colocasse um filme para ele assistir porque ele não sabia mexer com o aparelho. E o que ele fez, me pergunta Jack? Hit the road, Jack! Meu tio arremessou o DVD no chão e pisou em cima. Não obstante, titio se arrependeu. Perguntou a uma das minhas tias se ela não queria um DVD. Ela queria. Ela ganhou um DVD arrumado, mas funcionando. Meu tio pagou a arrumação. Assim somos nós. Hit the road, Jack.
Meu outro tio construiu a casa onde mora em um terreno anexo à casa do sogro. Um sobrado bonito. Depois que a casa dele ficou pronta, titio achou que a casa do sogro merecia uma forcinha. Arrumou a casa do sogro. Não contente, arrumou o carro do sogro. Mas os seres humanos são estranhos, Jack. Hit the road, Jack. O sogro cobiçou a casa de titio. A sogra do meu tio queria a casa onde meu tio mora. A situação está tensa, pois o terreno da casa é do sogro do meu tio. Meu tio não costuma discutir quando está chateado. Don`t come back no more, no more, no more. Meu tio procura uma nova casa, e ele procura uma casa onde ele possa construir de novo. Não é porque meu tio goste de construir casa. Não, claro. Meu tio vai levar o telhado do sobrado, as portas, a janela e quer mandar destruir o sobrado antigo com um guindaste.
Hit the road, Jack. Don`t come back no more, no more, no more.
Há uma longa tradição em família. O meu avô, pai dos meus tios acima descrito, era gago e dono de um bar na periferia de São Paulo. Uma vez um ladrão da vila começou a chatear a clientela de meu avô. Meu avô pediu para o ladrão sair. O cara não saiu. Meu avô pediu sem gaguejar. O cara não saiu. Meu vô saiu do balcão, pegou o cara pelo colarinho e o arremessou para fora do bar.
That`s rain! Hit the road, Jack.
O meu bisavô, sogro do meu avô arremessador de homens, também gostava de arremessar pessoas. Minha mãe diz que o bisavô fez muito isso no Paraná, de onde ele veio. Uma vez não deu certo. E ele teve de esconder em uma casa de moças distintas, um puteiro, durante dois dias.
Hit the road, Jack!




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Caústicos:

 



Um dia que nunca termina



- Fio, vem passar o café
- Já vou mãe, que café é coisa que eu não bebo mas eu faço
- Fio, mas você não bebe mais café?
- Mãe, o café me deixou antes que eu o deixasse.
Frank saiu de sua casa perto do posto de gasolina e foi andando até o trabalho. Não trocou de roupa. A mesma camisa velha com a qual dormiu. A mesma calça e o mesmo cheiro.
-Bom dia, Frank
-Bom dia
-Bom dia, Frank
-Bom dia,vai bem?
Não que Frank quisesse desejar bom dia para aquelas pessoas. Ele desejava que o dia fosse delas fosse horrível. O que haveria de bom em um dia que nunca termina?
Frank passou pelo trabalho, onde seus companheiros deitavam-se em cima das máquinas paradas, um cheiro de madeira. O chefe olhava, mas a barba por fazer denunciava: por que não apreciar aquele momento de brisa leve?
-Como vai ser hoje, Frank?
-Vai bem, vai bem.
-E essa cara de cansado?
-Pois é, muito trabalho.
O sol a pino. Frank continuou andando pelo acostamento da estrada, com a grama mal cortada, o asfalto quebrado em pequenas pedras, mulheres carregando os filhos pela mão, placas de anúncios, o supermercado funcionando interruptamente.
-Parabéns, Frank!
-Obrigado, obrigado.
-A gente sempre confiou em você, Frank.
-Eu não podia fazer menos, a senhora sabe.
Frank não gostava de receber parabéns, porque ele não enxergava mérito algum em sobreviver. Se os filhos daquelas mulheres estavam mortos, por que os parabéns por estar vivo? Ouve um massacre, o sangue foi derramado e a prefeitura e chuva limparam rapidamente o estrago. Havia alguns pedaços de carne misturados à grama, mas nem se sentia o cheiro. Frank continuou andando. Agora passava perto de uns casebres ali na Vila Rosina. Os casebres eram feitos de madeira.
-Frank, você me dá uma força?
-Claro, opa, o que precisa?
-Segura a minha mão?
-Seguro.
Frank segurou a mão de umas cem pessoas ao mesmo tempo. As mãos todas vinham encontrar a sua. Mãos e cabeças e braços recheados querendo abraços. Mas Frank saiu devagar e despistou os abraços. Ele não queria abraçar ninguém desde que aquele dia que nunca termina começou, faz mais de cem anos.




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Caústicos:
Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

 



As canções que você fez para mim


Deve haver alguma música do Roberto Carlos com esse título. Ou talvez com essa frase. De fato, mesmo, eu já devo ter ouvido o Robertão falar isso alguma vez. Mas isso não importa. A frase existe e foi cunhada. Lá nos recônditos da memória, a frase estava lá, dormindo nos meus arquivos, embolorada junto de algumas lembranças.
Nessa madrugada, alguns dos tantos "eus" que moram dentro de mim decidiu que tinha de buscar essa frase. Trouxe com ele não só a frase mas também muitas lembranças para o "eu-principal", ou seja, eu. Mas antes de falar das lembranças, as canções.

De alguma maneira, há músicas feitas por pessoas que você nunca conheceu, nunca conhecerá e que falam com você, meio ao pé do ouvido. Abaixo desse texto há outro sobre as músicas do meu panteão. Outras eu nem lembrava, porque o meu panteão sofre leves modificações com o tempo e algumas músicas tomam o lugar das outras. Junto de "As canções que você fez para mim" chegaram envelopadas em um pedaço de pano e com cartão sem nada escrito duas músicas, sendo que de uma me lembro o nome, mas não a música inteira, e da outra eu sei a música inteira, mas não sei o nome. Vamos começar pela primeira, que é "Quase sem Querer", da Legião Urbana, a malfadada Legião Urbana, a panacéia adolescente que urge em nos tomar quando temos espinhas na cara e por vezes dá as caras de novo. Eu não me lembrava de como eu gostava dessa música. "Tenho andado distraído / impaciente / e indeciso / E ainda estou confuso mas agora é diferente / estou tão tranqüilo e tão contente / quantas chances desperdicei / quando o que eu mais queria / era provar para todo mundo / que eu não precisava provar nada pra ninguém / me fiz em mil pedaços / pra você juntar / e queria sempre achar explicação para o que eu sentia / mas, não sou mais / tão criança / a ponto de saber tudo / as vezes o que eu vejo quase ninguém vê / eu sei que você sabe quase sem querer / que eu quero o mesmo que você." Depois desse trecho não me lembro mais nada e tenho quase certeza de que há corruptelas nele. As músicas quando vem para dentro da mim são assim. A mente muda a música e depois você nem reconhece mais a versão original.

A que eu não lembro o nome já vem chegando, se apoderando e segue andando: "ando devagar porque já tive pressa/e levo esse sorriso, porque já chorei demais/ hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe/eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei, eu nada sei/ conhecer as manhãs e as manhas, o sabor das massas e das maçãs / é preciso o amor pra poder pulsar/ é preciso paz pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir/penso que cumprir a vida seja simplesmente/compreender a marcha, e ir tocando em frente/como um velho boiadeiro levando a boiada/eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou/estrada eu sou/todo mundo ama um dia, todo mundo chora/um dia a gente chega, no outro vai embora/cada um de nós compõe a sua história/e cada ser em si, carrega o dom de ser capaz/de ser feliz".

As duas canções são de épocas diferentes. A primeira me leva de volta aos 12 anos e me lembra um final da tarde olhando pela janela do meu quarto, escutando música, preparando-me para sair na rua e conversar na laderia, vendo passar as moças mais velhas e as meninas da nossa idade, perguntando-nos por que elas não davam bola para a gente, apesar de jogarmos bola na chuva, sem camisa e sem chinelo, na rua de paralelepípedo.

A segunda eu já tinha 17 anos e estava em uma cidade específica: Bragança Paulista, curtindo uma baita de uma fossa no meio de uma favela da cidade. Era o tempo de "Missão Jovem" da Pastoral da Juventude. Era o tempo de prestar vestibular puto da vida de ter de prestar o tal do vestibular. De trocar cartas raivosas com a minha mãe, que me queria ver estudando enquanto eu insistia em fazer campanha contra a Dívida Externa nas ruas de Caieiras depois da Missão Jovem.

O "eu" que me trouxe as músicas, a frase e as lembranças deve ser o denominador comum desses dois "eus", o dos 12 e o dos 17. Alguma coisa ficou perdida lá atrás. E não foi o chinelo de borracha nem a afinação que eu jamais tive.




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Caústicos:
Terça-feira, Janeiro 10, 2006

 



Ainda a sala pela manhã


Um amigo me convidou para escutar samba. Me enviou algumas músicas. Eu enviei a ele outras tantas, mas, creio que levei vantagem. Duas delas, "Cicatrizes" e "Espelho Partido", foram alçadas ao panteão das minhas canções prediletas em apenas dois dias. No panteão também estão "Song to Woody", "Hurricane" e "Dont`t think twice", do Bob Dylan, "Anos dourados", "Apesar de você" e "Bom Conselho", do Chico Buarque, "Chega de Saudade" e "Samba de uma nota só", com a Nara Leão, a trilha sonora de "O poderoso chefão", o hino dos partisans franceses e o hino do Palmeiras.

Hoje pela manhã, comecei por "Marcha da Quarta-Feira de Cinzas", uma música que sabe como mexer com a saudade, mas para a qual falta um pouco de crueldade, de sangue, de lágrimas e de suor. Também é um tanto asséptica. E é exatamente falta de assepsia o que sobra em "Cicatrizes" e "Espelho Partido". Nas duas o violão sobe e desce como uma navalha que se precipita sobre o peito e sai com a mesma lentidão com que entrou. A letra de "Espelho Partido" conta a dor pela perda do pai e um passado típico, no qual só escolhemos o que queremos recordar (tem alguém que disse que o passado não existe, sequer existiu, ele ainda está em nós com a sua força incomensurável). É uma música onde está a lembrança, a raiva e o rancor pela ausência. A todo instante parece que falta algo em sua casa quando você escuta essa música. Já em "Cicatrizes" surge a força da destruição pela perda de um amor. Ou, quem sabe, de todo e qualquer sentimento que não a dor: "Que a vida não amenizou / Que a vida a dor domina / Arrasa e arruína / Depois passa por cima a dor". Ambas as canções mexem com algo incomensurável, que é o fato de sentir a dor que não se sente, a dor que fingimos que é dor para disfarçar a dor que deveras sentimos. Não senti a dor e a perda descrita pelo cantor, talvez nunca tenha uma experiência como a que ele teve, mas sei exatamente sobre o que ele está falando e o que está faltando. Indo além, "Cicatrizes" e "Espelho Partido" são músicas que criam um mundo em que prevalece o fosso, uma experiência que faz qualquer outra parecer irreal. Nenhum sentimento se sente tão intenso, mexe tanto com a face, com o corpo e com a alma como a dor provocada pelo fosso. O que é a alegria perto da dor? Um anestésico. O que é a tristeza perto da dor? Prelúdio. O que é o alívio? A falta temporária da dor. O segundo fator é a comodidade. É cômodo ser triste. O fosso é acolhedor porque é o limite. Mais ao fundo, impossível. O fosso também atrai a compaixão. Como todo mundo já passou pela dor, a empatia, ainda que com resistências, é imediata. Ainda que se supere a dor, fica a lembrança. Todos lembramos com exatidão o momento em que fomos apunhalados. Qualquer ambiente sombreado por essas músicas pode virar um fosso. Inclusive a sua casa, que começa a parecer ameaçadora e desconfortável. Não por causa da sua casa. Mas porque em cada pedaço dela acontecem várias histórias ao mesmo tempo, histórias de uma vida inteira, lembranças de todas as pessoas que já passaram pela minha vida. E aí está a virtude máximas das duas canções.

Lembrar que é necessário recordar. E também, principalmente, lembrar que quem está no fosso precisa esquecer. Talvez não as memórias e as pessoas. Mas a dor provocada pelas memórias, a única dor capaz de ser expurgada. A única cor que possibilita a redenção e o recomeço, o perdão, a volta com o pai que abnegou de ser seu pai.




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Quinta-feira, Janeiro 05, 2006

 



O ermitão


Noite passada, sonhei que meu avô de 89 anos estava cego. Cheguei na casa onde ele mora com a minha avó em Pirituba e percebi que os seus olhos acastanhados tinham perdido a cor, estavam sem brilho. Ele andava com dificuldade, esbarrando nas plantas de minha avó que, enfurecida, pedia para ele tomar mais cuidado. De repente, acho que minha cabeça fez alguns anos se passarem. Meu avô, e eu não sabia a sua idade, já lidava muito bem com a cegueira. Desviava das pessoas sem a necessidade de uma bengala, sabia onde ficava a porta e a janela. Eu via perfeitamente o corredor aberto que separa a rua da casa onde meus avós moram.
Quando acordei pela manhã, resolvi ligar para o senhor e a senhora ¿Meu último sobrenome¿. Minha avó, que tem 87 anos, atendeu. Ela reclamava apenas de algumas dores nas pernas. Meu avô fazia a barba. Disse à dona Adelaide que pretendo almoçar com eles na próxima semana. Minha avó ficou contente. Eu também.
Desliguei o telefone. A sala estava vazia. O único som era o da chuva. Ainda era cedo, 9h30. Uma manhã inteira pela frente. Me vesti, sai pela avenida. Tento descobrir algum rosto familiar. Alguém de Caieiras, alguém da faculdade, alguém do trabalho. Mas os rostos se alternam como flashes. São mais algumas pessoas que passam pela sua vida sem deixar nenhuma marca, nem de dor nem de qualquer outro sentimento. Elas estão lá sabe-se lá por qual motivo.

Às vezes, dentro do ônibus, pego-me pensando em quem são as pessoas que estão do meu lado. Coloco o fone no ouvido e tento entrar na cabeça de cada uma ao ritmo da música. Imagino quem ali já matou alguém. Depois passo a pensar no que levou aquela pessoa a estar naquele trem naquele horário. Se ela já tiver matado alguém e quiser repetir a experiência, eu poderia ser um bom alvo, já que costumo estar exatamente na frente da pessoa que penso que já matou alguém. Continuo minha jornada. O próximo passo são as pessoas que entram nos pontos ou estações. Não faz muito tempo, um grupo animado entrou em Pirituba e foi forçado a descer duas estações depois, na Lapa. Tomaram uma surra de cacete no joelho e nas pernas, além de um abridor de lata no ouvido, que é um tapão bem forte na cabeça. Eles entraram no trem cantando, subindo nos bancos, bebendo cerveja e pedindo dinheiro aos passageiros. Você poderia negar. Eu neguei. Não me aconteceu nada. Um deles apenas implicou com o livro que eu lia. As pessoas do trem ficaram um pouco assustadas, outras se divertiram. Alguns dos passageiros saltitantes caíram no colo dos outros passageiros. Quando foram expulsos e começaram a apanhar na frente de todo mundo, nada aconteceu. O trem fechou as portas e foi embora. Eu fiquei pensando no que eles pensavam e de onde eles vieram. Como era um sábado, imaginei que tenham vindo de alguma festa ou do futebol. Alguém ali já perdeu os pais ou a namorada. Fico pensando no que eles ficaram pensando enquanto apanhavam ou se a dor é realmente capaz de apagar qualquer pensamento. Há relatos de pessoas que, sob tortura, imaginavam-se em qualquer outro lugar, no parque de diversões. Imagino o quanto eles tiveram de apanhar até conseguirem formar a imagem de um parque de diversões na cabeça. A cegueira do meu avô veio toda em solavancos durante uma noite de sono tranqüilo.

O único momento do dia em que tudo parece claro são as manhãs. Nelas, só resta a solidão, o vazio e as saudades de todas as pessoas que já passaram por sua vida, especialmente aquelas que te dão carinho. Se no Brasil cada casa é um pequeno país, preciso de passaporte.




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Caústicos:
Sábado, Dezembro 24, 2005

 



Se o ano te fez de sparring


As árvores continuam crescendo, um dia chove e no outro faz sol e no outro também, as ruas ainda são recobertas por asfalto, os ônibus seguem atrasados, eu bebo limonada e cismo em andar a pé. Nada de novo sobre a Terra, exceto que um momento depois do outro, o meu tempo sobre ela diminui. Talvez seja hora de correr, mas eu não consigo acreditar nisso. Eu só reconheço a alvorada do meu tempo.

Esse ano me fez de sparring. Não posso dizer que faltaram emoções. Passei 2005 escapando de um cruzado de direita, um gancho, lutei para não perder os dentes e a sorte. Até agora, graças a Deus, os dois continuam no lugar. Desviei da dor, chamei o safado para a briga. No começo ele gozou de mim e eu senti medo. A platéia esperava ávida pelo soar do gongo. As luzes da ribalta e dos flashes silenciosos. A luta transcorreu no Planalto da Paulista e nos desvios entre um e outro carro para não perder o ônibus.Nos corredores das redações para não perder a calma e a fé. O teto do ginásio foi o céu de São Paulo, o meu treinador foi o vento da manhã enquanto caminhava rumo ao inglês. A água jogada no meu rosto foi a luz da estrela d`alva que arrebenta a cortina de fumaça. Os meus braços finos se ergueram. Apanhei muito, bati um outro tanto, defendi-me com a força dos pulmões e o sangue que escorre pelas minhas veias. Suportei as minhas lágrimas e me senti alvejado pelas de minha mãe. No final, o suor. O resultado não sei. O tempo não dá veredictos imediatos; eu o chamo para a briga. Sinto que meus ossos doem, sinto os cortes e penso na herança legada ao meu corpo e à minha mente.

A luta continua, companheiros. Não no mesmo palco, a platéia muda, os carros correm. Mas o adversário continua o mesmo. É contra o tempo que os desterrados se levantam, é contra a necessidade e a dependência que cultiva o tempo. As pedras são levadas pacientemente até o cume e uma hora é preciso deixar que ela desça. Depois, é preciso pegar a pedra e construir a sua casa. O tolo a constrói na areia porque nunca precisou usar os braços e quer poupar o tempo. Eu quero enfrentar o tempo, me estapear com ele, mas sem odiá-lo. Não odeie os seus inimigos, isso abala o seu bom senso.

Agora, dou as boas vindas a 2006, mas sei que a minha luta é outra. É contra o tempo que ergo as minhas forças. Cada ano é um round com um lutador diferente. No final, não há vencidos nem vencedores. Há a vida.




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Terça-feira, Dezembro 13, 2005

 



Semanário de viagem



Entrei na casa de minha tia e vi uma suástica desenhada em papel sulfite na porta do quarto. Olhei para trás e vi a minha tia, que é mulata, exatamente da cor do meu avô, que é da Paraíba, e bem mais negra que o meu primo adotivo, que é branco e afixou a suástica na porta do quarto dele. Dentro do quarto do meu primo há uma cruz, uma espada, uma cruz de ponta cabeça, um cartaz do The Doors e um retrato da Cicciolina. Meu primo tem 15 anos: dirige o carro da minha tia, anda de mobilete e pega a moto dos amigos emprestada. Os amigos dele são filhos de imigrantes alemães, poloneses e italianos. Os pais dos amigos deles são ex-agricultores que se mudaram para a cidade e viraram comerciantes ou profissionais liberais. A irmã do meu primo, a Sô, estuda na Apae. A minha tia, a mãe do meu primo que afixou a suástica no quarto, trabalha em dois empregos: de manhã, limpa um escritório e faz café. À tarde, é a cozinheira-chefe de uma padaria-chique (uma espécie de Bella Paulista). Os três moram em Timbó, em Santa Catarina, onde passei quatro dias na semana passada.

Atualmente, a minha tia, que é viúva e mulata, namora um polonês. O nome dele é Ulisses, e o sobrenome não publicarei. O Ulisses mora num rancho num bairro chamado Araponguinhas. Esse bairro está cheio de pessoas vindas do Paraná, especialmente de Cascavel e Londrina. O namorado da minha tia me contou que a cidade está repleta de paranaenses e que o bairro, o Araponguinhas, está virando uma favela _por causa dos paranaenses. Os paranaenses causam medo nas pessoas de Timbó. No final de semana passado, o dono do maior supermercado da cidade foi morto. O acusado é um moreno, alto, paranaense. Retratos falado dele estão em todos os cantos da cidade. Não se falou de mais em nada em Timbó no final de semana, só no assassino paranaense, embora ninguém saiba se ele é paranaense mesmo.

Perto da casa de uma outra tia catarinense, vi um rapaz vestido de skinhead. Ele passou por nós, não disse nada. Dentro de pouco tempo, um mudo, que é vizinho dessa minha outra tia catarinense, que tem um sobrenome alemão e teve um filho com o meu tio, que é Pereira, veio conversar conosco. Ele não acreditava que eu podia ser irmão da minha irmã e primo de um outro primo porque eu sou louro e eles são morenos. Essa não é uma afirmação nova. Em São Paulo as pessoas também se confundem. No colégio, em algumas rodas de amigos brancos, e na minha escola devia ter de negros o que, proporcionalmente, a população brasileira tem de índios, eles gostavam muito de falar mal dos "paraíbas". Eles não paravam nem quando eu falava que eu era "paraíba" também _meu avô nasceu em Alagoa Nova, perto de Campina Grande. Meus amigos ignoravam a afirmação.

O Ulisses, namorado da minha tia que é mãe do meu primo que tem uma suástica no quarto, também resolveu ignorar minha origem. Ele disse que, apesar de eu ser da cidade grande, era respeitoso com os catarinenses. Ele também não ficou bravo ao saber que sou bisneto de italianos. Quando o Ulisses era mais jovem, os italianos gritavam para eles: "Olha, um polaco sem bandeira!". A frase geralmente terminava com uma garrafa na direção da boca do italiano e facadas nas pernas do polonês. Hoje, o Ulisses diz que não tem mais isso por lá nem com os alemães, que eram mais quietos e também mais traiçoeiros _embora o Ulisses diga que tem muita gente que não gosta de negros por lá _ o Ulisses diz que não tem restrições aos negros.

Em Timbó, a minha tia que tem um filho que tem uma suástica no quarto, disse que os homens costumam se enforcar por qualquer motivo. O Ulisses me conta que os poloneses são vistos como bêbados na cidade, e ele mesmo é um ex-alcóolatra. A minha outra tia catarinense que tem um filho com um Pereira conta dos distúrbios que o tráfico de drogas está provocando na cidade, embora o irmão mais velho dela esteja envolvido em uma série de negócios irregulares e empresas fantasmas. Em Timbó, toda família tem alguém com câncer.

Todas essas pessoas são boas. O Tiago lava a louça e tem se esforçado para ser o homem da casa depois da morte do meu tio, a minha tia luta para criar a Sô e o Tiago apesar da jornada de 16 horas por dia em dois empregos diferentes, o Ulisses está construindo um centro de recuperação para drogados e alcóolatras, a minha tia que teve um filho com um Pereira recusou um aumento de salário com aumento de carga horária para poder ficar mais perto do filho, o mudo, vizinho da minha tia, trabalha de caminhoneiro e conseguiu mandar a filha para estudar nos EUA, a cidade de Timbó foi construída por imigrantes fugidos de guerras e perseguições na Europa atraídos por promessas de trabalho em fábricas ou padarias e que acabaram tendo de desbravar uma floresta densa e úmida no interior de um Estado periférico em um país para lá de distante (ao menos da Europa). O resultado é uma cidade agradável, arborizada, em que as casas não têm muros e onde há muitos empregos _uma das principais empresas da cidade é uma agência de trabalho.

Do lado de Timbó tem uma cidade chamada Pomerode. As pessoas não gostam muito de Pomerode por lá. A maior parte das lojas de Pomerode tem letreiros escritos em alemão e eles se orgulham de ser a cidade mais alemã do Brasil. Algumas pessoas de Timbó deixam escapar: os pomeranos não gostam de brasileiros. As pessoas de Timbó não gostam de quem não gosta de brasileiros.




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Caústicos:
Terça-feira, Dezembro 06, 2005

 



Mitomanologia


Parado na esquina, jogado de lado, andando na sombra, ser gauche na vida. Caminhar cheirando poeira. Todos os lugares são largos ou apertados demais. Os prédios são muralhas ameaçadoras, fortalezas de concreto armado, impenetráveis seja pelos murros ou pela amargura que escorre junto com o suor. As ruas obscurecem-se por um dilúvio de labirintos e rostos que, sabe-se, nunca serão vistos mais do que uma única vez, ainda que se faça o mesmo caminho todo dia, sempre correndo, sentindo-se atrasado até quando se chega antes. Os elevadores sobem e descem como estacas que cravam no coração o peso do tempo. Os porteiros te olham como sentinelas, e como cronistas de sua vida imediata. Nenhuma música, nenhum som. Sobram os relinchares ferozes dos carros, das motos; resta o peso do chão que arremessa para cima e impede de se confundir com as pedras portuguesas da calçada e com as pessoas que viraram apenas uma parte do seu corpo: a mão que entrega o panfleto, o torso na qual se apoia a placa, o pé que acelera a moto, a língua implorante por esmola. Carregar nos ombros a chuva que cai, o ar que todos os animais respiram, sentir frio quanto todos sentem calor e ser incapaz de sentir calor. Não desejar uma vida de aventuras, e sonhar todo dia que se é o mártir imolado em nome do cotidiano.

_Pai, por que você nunca foi herói?
_ Porque nunca anunciaram a vaga nos Classificados, meu filho.




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Caústicos:
Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

 



O circo


Há um decreto em todas as consciências onde se lê: "o mundo não é um circo, ou não deveria ser". Como todas as condicionais, essa também enseja um problema. Há um monte de coisas que não deveriam ser, um monte de movimentos cuja existência é duvidosa. Um circo só tem graça porque ele não é o mundo, é uma breve e divertida fuga, mas que não pode ser cotidiana sob o risco de perder a graça.

Acabei de receber uma informação: uma fábrica de bicicletas vai promover uma corrida de bicicleta com 500 "papais noéis" pelas ruas de São Paulo. Esse é apenas um detalhe engraçado. O substancial é alguém achar que uma corrida de 500 "papais noéis" é algo bom, útil, agradável, belo. Perdemos a noção da realidade. Nunca lemos tanto, nunca tivemos tantas informações, mas também, ao menos na classe média ilustrada, perdemos a noção básica sobre algumas coisas. Somos vários meteoros nos descolando da Terra.

Esquecemos de dar bom-dia, de arrumar um interruptor, de fritar um ovo. Há cada vez mais coisas entre nós e o mundo, cada vez mais intermediários: a TV, o rádio, a internet, o medo, a ansiedade. Estamos perdendo os vínculos com os lugares em que vivemos. Vão-se embora o bom senso, o respeito, a honra, o que nos torna humanos. Daí, eu acho, que alguém possa achar útil e importante dizer a todas as montanhas que 500 pessoas fantasiadas de Papai Noel vão sair pedalando por São Paulo. Substituímos a realidade pelo entretenimento, e estamos contentes em satisfazer o nosso ego, bailando nesse espaço que tem pouco de sideral. Dura evolução essa. Passamos de povo para nação, de nação para Estado, de Estado para comunidade, de comunidade para cidadão, de cidadão para indivíduo, de indivíduo para consumidor e de consumidor nos restou ser apenas egos jogados ao vento, soltos, mas não livres. Somos milhares de egos pedalando na vida em uma bicicleta com uma roda só.



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Caústicos:
Terça-feira, Novembro 29, 2005

 



A volta de Ulisses



Pego sempre o mesmo caminho para ir e voltar de certos lugares. Para o trabalho, no centro da cidade, pego a Paulista, desço a Consolação, viro no Minhocão e caio na Barão de Limeira. Essa é a artéria aonde ligam-se as veias de todos os meus caminhos, para onde volto para casa, vou para a natação, caminho às vezes sem rumo, mas sempre pelo mesmo caminho. Esse emaranhado de artérias e veias é banhado pelo sangue que brota das pessoas que já foram atropeladas nos cruzamentos, mortas nos cortiços, das moças que foram levadas para o sexo, dos homens que se cortaram uns aos outros em rixas de sangue e de ódio, pela água fétida acumulada nos becos que se dissolvem ao anoitecer, pela cachoeira de cachaça que se precipita da boca dos mendigos sôfregos, do suor das crianças que se transformam em crack. Esse espetáculo do sofrimento compõe uma teia em conjunto com essas artérias e veias de concreto que em nada lembra um coração. Tem se um labirinto onde milhares de Minotauros estão presos sob os auspícios da obra de um Dedalus de várias cabeças e formatos, esse arquiteto capaz de manter tanta gente aprisionada, todas elas partes desse labirinto de néon e cartazes colados em paredes sujas e calçadas esburacadas.

Pois esse é o meu desafio. Todos os dias, tenho de manter a cabeça sadia nesse labirinto gigante, escapar da Hidra, do Leão, descer até o inferno e pegar a cabeça do cão de Hades, que pode ser a perda do ponto de ônibus por causa do sono acumulado, a fome que cresce por entre meus poros porque não há tempo para cozinhar algo melhor do que um pacote de bolachas recheadas _ e tenho de arrumar todos esses pontos para cumprir a jornada de um dia inteiro que parece te levar como se fosse a eternidade. Às vezes parte de mim uma vontade gigantesca de virar um caçador de Minotauros, mas são tantos e tão variados que não sei por onde começar. Então faço alguns exercícios mentais e começo a olhar para fora e ver se o Cemitério da Consolação ainda está lá, se seus mortos não estão bailando perfumados, embalados pelos sucessos da época em que cada um se foi, músicas tocadas por uma orquestra única, formada pelas estátuas que ornamentam os túmulos. Na Paulista, olho no fundo do casarão ao lado do Conjunto Nacional e vejo aquela casa pegar fogo, o único fim que lhe serve depois de estampar sofrimento até em suas cores amarelo-pálidas: quanta gente haverá vivido naquela casa, que talvez só se mantenha de pé por causa das lembranças que é capaz de causar.

E ainda há quem me venha falar de trabalho. Que trabalho maior existe do que não se deixar afogar por tanta informação? Há quem me venha falar em sucesso. Que sucesso, senão aquele de se manter lúcido? São tantos mares a serem navegados, há canoas suficientes, mas faltam navegantes. Há tanto mar, tanto a navegar, mas o porto sempre parece sedutor, onde trabalho e sucesso fazem sentido, onde crianças mortas, ruas fétidas e laços desfeitos não fazem sentido. Não há espaço para o fracasso no porto, não há espaço para pensar nem para sentir. É preciso seguir em frente. É preciso fazer como os pretendentes de Penélope, a mulher de Ulisses. É preciso contar que o imponderável nunca vá acontecer. É preciso acreditar que Ulisses não vai voltar.




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Caústicos:

Cartaz Amarelo
   
Pendurado na parede azul de uma casa vermelha